Posts da Categoria ‘Hanseníase’

19 jul 2010

Como deve ser aplicada a bota de Unna?

De acordo com material produzido pela Escola de Enfermagem da Universidade de Ribeirão preto (USP), a bota de Unna, que contém basicamente uma mistura de gaze impregnada com óxido de zinco, glicerina e gelatina, deve ser aplicada seguindo os passos descritos abaixo(1):

1. Lave e seque a extremidade inferior.

2. Avalie a ferida. Decida se um curativo deverá ser colocado sobre a ferida ou se somente a Bota de Unna deverá ser utilizada. Às vezes, um hidrocolóide, espuma, ou um curativo de alginato ajudam a diminuir a dor do paciente.

3. Aplique loção hidratante ou vaselina à pele ressecada da perna.

4. Peça ao paciente para manter o pé em um ângulo de 90 graus em relação à perna. Ele não deve manter o pé em posição de bailarina. O ângulo de 90 graus fará com que o curativo seja mais confortável durante o caminhar.

5. Comece a enrolar a Bota de Unna logo acima dos dedos na região metatársica e continue até que chegar a 3 cm abaixo do joelho. Envolva com 75% de sobreposição em cada fileira. O curativo pode ser dobrado ou cortado para evitar rugas. Alise a cobertura conforme você avança.

6. Não estique ou puxe a Bota de Unna. Ela se tornará rígida durante o processo de secagem. Se houver muita tensão na aplicação, ela ficará rígida demais após a secagem e o paciente sentirá desconforto. Quando os curativos estão muito apertados, os pacientes tendem a removê-los e podem não retornar ao atendimento.

7. Se houver sobras da atadura da Bota de Unna quando esta chegar ao joelho, a atadura poderá ser cortada e reaplicada do tornozelo para cima.

8. Aplique um material para absorver a secreção ou exsudato sobre a Bota de Unna e uma atadura elástica para fazer a compressão.

9. A Bota de Unna é trocada semanalmente, porém trocas mais ou menos frequentes podem ser feitas, dependendo da quantidade de secreção. Para pacientes com grande volume de secreção, pode ser necessário trocá-la 2 vezes por semana.

10. O paciente precisa ser orientado em relação ao cuidados com a Bota de Unna:

a. Oriente o paciente para elevar a perna quando estiver sentado. Ele deve ser estimulado a caminhar. Deve ser desencorajado a permanecer de pé em um único lugar ou sentado durante longos períodos com as pernas dependuradas

b. A Bota de Unna deve ser mantida seca. Para tomar banho, a perna deve ser embrulhada em plástico para que não haja contato com a água. O plástico que envolve o pé ficará escorregadio; a pessoa deverá tomar cuidado para não escorregar e cair no banheiro.

c. Se a pessoa precisar remover a Bota em casa, ela deverá ser desenrolada. Se a perna for colocada na água (no banho de chuveiro ou bacia), A Bota amolecerá e a sua remoção será facilitada.

d. Não é recomendado cortar a Bota de Unna para remoção em casa. Se tesouras caseiras ou uma faca for utilizada e a pessoa se cortar, existe o risco de iniciar uma outra úlcera e de infecção.

e. Oriente o paciente para observar os sinais/sintomas de insuficiência arterial: dedos pálidos ou azulados; inchaço severo acima do curativo; dor ou falta de sensibilidade nos dedos dos pés.

f. Instrua o paciente para observar os sinais/sintomas de infecção: dor crescente, vermelhidão se espalhando pelas pernas acima ou aos dedos dos pés, sensação de calor nas pernas ou aumento de temperatura ao toque, aumento de odor, etc.

Bibliografia selecionada:

1. Úlceras venosas e doenças venosas: tratamento [Internet]. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP [citado 2010 Fev 10]. Disponível em: http://www.eerp.usp.br/projetos/feridas/tratven.htm

Categoria da Evidência: Opinião desprovida de avaliação crítica, baseada em consensos, estudos fisiológicos ou modelos animais.(Grau D)

Profissional solicitante: Médico

Descritores DeCS: Úlcera/terapia; Curativos Oclusivos

Descritores ICPC2: Úlceras; Bota de Unna

Teleconsultor: Equipe Telessaúde RS

16 jul 2010

Qual o melhor tratamento tópico para psoríase “em placas” leve a moderada?

Concomitante ao uso de cremes emolientes, que visam hidratar a pele, corticóides tópicos, Calcipotriol (vitamina D) ou Tazaroteno (derivado sintético da vitamina A) parecem ter eficácia similar.

Devido à indisponibilidade do Tazaroteno no Brasil e ao alto preço do Calcipotriol, corticóides tópicos continuam sendo os fármacos tópicos de primeira escolha para o tratamento da psoríase. (grau D)

A potência do corticóide tópico a ser usado vai depender da região do corpo afetada. Palmas das mãos, plantas dos pés e couro cabeludo exigem o uso de corticóides mais potentes (ex: Propionato de Clobetasol 0,05%), enquanto na face e regiões de flexuras podem ser usados corticóides de menor potência (ex: Hidrocortisona 1%).

Em outras regiões geralmente são utilizados corticóides de potência intermediária a alta (ex: Betametasona 0,05% ou Propionato de clobetasol 0,05%). O regime de aplicação típico consiste na aplicação tópica do corticóide duas vezes ao dia, embora esquemas de pulsoterapia também sejam utilizados.

Bibliografia selecionada:

1- Feldman SR, Pearce DJ. Treatment of psoriasis [Internet]. Waltham, MA: UpToDate 17.1; 2009 [cited 2010 Jan 14]. Available from: http://www.uptodate.com/patients/content/topic.do?topicKey=~70US7LK5B.hPnko

2- Whitmore SE. Dermatitis and psoriasis. In: Barker B, Zieve’s. Principles of Ambulatory Medicine. 7a ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2007.

3- Ponzio HA, Favaretto AL. Dermatoses eritematoescamosas. In: Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 3a ed. Porto Alegre: Artmed; 2004.

4- Recommendations for initial treatment and when to refer [Internet]. The British Association of Dermatologists. c2008 [cited 2010 Jan 14]. Available from: http://www.bad.org.uk/site/1113/default.aspx

5- Recommendations for the initial management of psoriasis [Internet]. British Association of Dermatologists & Primary Care Dermatology Society. 2003 [cited 2010 Jan 14]. Available from: http://www.bad.org.uk/

Categoria da Evidência: Opinião desprovida de avaliação crítica, baseada em consensos, estudos fisiológicos ou modelos animais. (Grau D)

Profissional solicitante: Médico

Descritores DeCS: Psoríase/quimioterapia

Descritores ICPC2: Psoríase, tratamento

Teleconsultor: Equipe Telessaúde RS

16 jul 2010

Qual a conduta frente a pacientes com Hanseníase, poliquimioterapia completa e que persistem com crises reacionais do tipo 2 freqüentes apesar de uso contínuo de talidomida?

Na hipótese de não ter sido feito uso de corticóides, cursos de Prednisona por períodos curtos pode ajudar na resolução da sintomatologia e na prevenção de seqüelas das reações hansênicas tipo 2, a cada nova “crise”.

Importante ressaltar que seu uso é mandatório nos casos de comprometimento neural, irite ou iridociclite, orquiepididimite, mãos e pés reacionais, nefrite, eritema nodoso necrotizante e vasculite. (grau D)

Alternativamente à Talidomida, Clofazimina pode ser usada na dose de 300mg/dia com uma redução gradual para 100mg/dia ou menos, após boa resposta, por longos períodos.

Diferentemente da Talidomida e dos corticóides, não tem efeito sobre o quadro agudo, mas pode ser útil nos casos crônicos. (grau D)

Considerar aumento de dose da Talidomida (até 400 md/dia), até que os sintomas e as recorrências sejam controlados, é outra possibilidade, ainda que deva ser pesado o potencial custo-benefício da manutenção da droga nestas doses por longos períodos. (grau D)

Por fim, é importante ressaltar que nestes casos o encaminhamento para especialista focal para avaliação e acompanhamento conjunto está bem indicado. (grau D)

Bibliografia selecionada:

1- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia para o controle da hanseníase [Internet]. Ministério da Saúde: Brasília; 2002 [citado 2009 Dez 25]. (Série A. Normas e Manuais Técnicos; No. 111). Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_de_hanseniase.pdf

2- Jacobson RR, Krahenbuhl JL, Yoder L. Overview of leprosy [Internet]. Waltham, MA: UpToDate 17.1. 2009 [cited 2009 Dec 25]. Available from: http://www.uptodate.com/patients/content/topic.do?topicKey=~FUFMEXLrs6P49M

Categoria da Evidência: Opinião desprovida de avaliação crítica, baseada em consensos, estudos fisiológicos ou modelos animais. (Grau D)

Profissional solicitante: Médico

Descritores DeCS: Hanseníase; Quimioterapia Combinada

Descritores ICPC2: Hanseníase; poliquimioterapia; manejo

Teleconsultor: Equipe Telessaúde RS

16 jul 2010

Tratamento para onicomicose em pés pode ser feito somente com medicação tópica (ex: amorolfina) ou necessita, para maior eficácia, antifúngico VO (ex: fluconazol) ?

Não foi encontrada nenhuma revisão sistemática que comparasse o tratamento da onicomicose entre agentes tópicos e orais. No entanto, foram encontrados estudos que abordam isoladamente a eficácia de cada uma destas modalidades terapêuticas.

Revisão sistemática da Biblioteca Cochrane (1) conclui que há pouca evidência de que antifúngicos tópicos sejam efetivos para o tratamento da onicomicose. A maior parte dos dados disponíveis demonstram baixas taxas de cura (cerca de 30%) após longo tempo (48 semanas) de tratamento com Ciclopiroxolamina. Amorolfina e Butenafina parecem ser mais efetivos que Ciclopiroxolamina, mas poucas observações foram feitas e mais estudos são necessários.

No que diz respeito ao tratamento com agentes orais, a melhor opção terapêutica parece ser a Terbinafina utilizada 250 mg uma vez ao dia por três meses(2). (grau A)

Itraconazol e Fluconazol são alternativas com índices de cura um pouco menores, a depender da dose e tempo de tratamento (3). O Fluconazol parece atingir taxas de cura em níveis razoáveis somente quando utilizado por longos períodos (9 meses). Importante observar que mesmo agentes orais têm taxas de cura não muito altas, as melhores em torno de 60-80%.

Conclui-se que em termos de eficácia, os agentes antifúngicos orais são melhores que os agentes tópicos para o tratamento de onicomicose. (grau D)

No entanto, frente a um paciente com onicomicose deve-se ponderar a real necessidade de tratamento farmacológico e a via quando for o caso, levando-se em conta a vontade do paciente, os efeitos adversos e o custo do tratamento. Importante frisar que não há justificativa para o uso concomitante de antifúngico tópico e oral.(4)

Bibliografia selecionada:

1- Crawford Fay, Hollis Sally. Topical treatments for fungal infections of the skin and nails of the foot. Cochrane Database of Systematic Reviews. In: The Cochrane Library, Issue 3, Art. No. CD001434.

2- Crawford F, Young P, Godfrey C, Bell-Syer SE, Hart R, Brunt E, Russell I. Oral treatments for toenail onychomycosis: a systematic review. Archives of Dermatology 2002;138(6):811-16.

3- Brown SJ. Efficacy of fluconazole for the treatment of onychomycosis. Ann Pharmacother. 2009 Oct;43(10):1684-91.

4- Fungal nail infection (onychomycosis) - Management [Internet]. NHS Clinical knowledge Summaries. [cited 2009 Dec 18]. Available from: http://www.cks.nhs.uk/fungal_nail_infection/evidence/supporting_evidence/non_dermatophyte_onychomycosis#-370976

Categoria da Evidência: Estudos experimentais ou observacionais de melhor consistência; Opinião desprovida de avaliação crítica, baseada em consensos, estudos fisiológicos ou modelos animais. (Grau A e D)

Profissional solicitante: Médico

Descritores DeCS: Onicomicose; Antiinfecciosos Locais; Antimicóticos

Descritores ICPC2: Onicomicose; Tratamento tópico; Tratamento sistêmico

Teleconsultor: Equipe Telessaúde RS

30 jun 2010

Devemos prescrever antibiótico profilático para pacientes com queimadura de segundo grau?

A avaliação de um paciente queimado deve iniciar-se com as vias respiratórias, já que a lesão térmica direta das vias aéreas superiores pode produzir obstrução progressiva. Mesmo não havendo sinais de lesão térmica na face, a inalação de gases tóxicos, principalmente em vítimas de incêndios, pode levar à disfunção respiratória (1)(D).

Existem poucas evidências na literatura a respeito do manejo das queimaduras na atenção primária, sendo as recomendações, em sua maioria, baseadas em opiniões de especialistas.

Uma revisão do Clinical Evidence não encontrou evidências de que o uso profilático rotineiro de antibióticos (tópicos ou via oral) para queimaduras superficiais da derme possa reduzir as chances de infecção ou acelerar a cicatrização (2)(A).

Além disso, o uso excessivo de antibióticos pode levar à resistência bacteriana e um risco desnecessário de efeitos adversos. A higiene básica e trocas freqüentes de curativos auxiliam na prevenção de infecções.

Bibliografia selecionada:

1. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 3a ed. Porto Alegre: Artmed; 2004.

2. Clinical Knowledge Summaries [Internet]. Newcastle upon Tyne (UK): Sowerby Centre for Health Informatics at Newcastle; [cited 2010 Jun 30]. Burns and scalds : management; [cited 2010 Jun 30]; [about 1 screen]. Available from: http://www.cks.nhs.uk/burns_and_scalds/management/detailed_answers/managing_superficial_dermal_burns

Categoria da Evidência: Estudos experimentais ou observacionais de melhor consistência; Opinião desprovida de avaliação crítica, baseada em consensos, estudos fisiológicos ou modelos animais. (Grau A e D)

Profissional solicitante: Médico

Descritores DeCS: Queimaduras; Antibioticoprofilaxia

Descritores ICPC2: Queimadura de Segundo Grau; Antibióticos; Profilaxia

Teleconsultor: Equipe Telessaúde RS

12 mai 2010

Que cuidados o Agente Comunitário de Saúde (ACS) pode orientar para pacientes com úlcera varicosa?

Uma úlcera varicosa é uma lesão de pele abaixo do joelho que leva mais de seis semanas para cicatrizar. Pode variar em tamanho, cor e profundidade. Ela pode durar muito tempo e retornar várias vezes após cicatrizar. Geralmente é causada por problemas na circulação venosa das pernas. Pode ser dolorosa e causar irritação, coceira e inchaço na perna afetada.

É mais comum com o avançar da idade - raramente ocorre antes dos 45 anos - com a obesidade e com a imobilidade.

O tratamento envolve a limpeza e curativo do ferimento, com a aplicação de faixas de compressão. A úlcera varicosa pode levar bastante tempo para cicatrizar e pode retornar mesmo após parecer curada. Também é possível a ocorrência de infecção ou outras complicações.

O ACS pode orientar a pessoa portadora de úlcera varicosa a realizar os curativos regularmente em sua Unidade de Saúde. Além disso, pode incentivar o paciente a adotar medidas que previnam o aparecimento de novas úlceras, como:

* Usar hidratante nas pernas regularmente - além de fortalecer a pele, a passagem do hidratante ativa a circulação.

* Examinar as pernas frequentemente, procurando rachaduras, inchaço e vermelhidão. Tratar pequenas lesões logo que aparecem evita o desenvolvimento de úlceras.

* Cuidar para não machucar as pernas.

* Vestir calçados confortáveis, sempre que possível.

* Parar de fumar, pois a nicotina piora a circulação e facilita o aparecimento de úlceras.

* Emagrecer, para quem está acima do peso.

* Fazer dieta balanceada, para manter um peso saudável.

* Não beber álcool em excesso.

Bibliografia selecionada:

1- Leg ulcer - venous - leaflets for patients [Internet]. CKS - Clinical Knowledge Summaries. [cited 2010 Jan 13]. Available from: http://www.cks.nhs.uk/leg_ulcer_venous#-364164

Categoria da Evidência: Opinião desprovida de avaliação crítica, baseada em consensos, estudos fisiológicos ou modelos animais. (Grau D)

Profissional solicitante: Agente Comunitário de Saúde

Descritores: Úlcera Varicosa; Auxiliares de Saúde Comunitária/educação

Teleconsultor: Equipe do TSRS

10 mai 2010

Qual abordagem para o paciente com queixa de alopecia?

Alopecia pode ser descrita como perda de cabelo em áreas onde normalmente eles deveriam crescer. A alopecia pode ser decorrente de influências genéticas, de processos inflamatórios locais ou de doenças sistêmicas. Alopecia é classificada como cicatricial ou não-cicatricial, dependendo se a perda de cabelo é permanente ou não, conforme a área do cabelo atingida (bulbo, matriz do cabelo, etc).

Um dos mecanismos primários da patogênese da perda do cabelo é a destruição por agentes químicos ou físicos da matriz do cabelo, que normalmente produz um processo cicatricial. Já as doenças sistêmicas e drogas estão mais relacionadas com processos não-cicatriciais. Nesta alopecia, a integridade do folículo piloso é mantida, existindo a possibilidade de um novo crescimento do pêlo.

A alopecia androgênica (não-cicatricial) é simétrica, começando usualmente na região frontoparietal (escalpo), onde o cabelo fica mais fino (parecendo pelugem). Existe uma predisposição genética e ação hormonal (dihidrotestosterona), estando também relacionada com a idade. É uma herança poligênica, autossômica dominante com penetrância incompleta.

A dihidrotestosterona (DHT) inibe o crescimento no cabelo no escalpo, enquanto estimula o crescimento dos pêlos na face e na região pubiana.

A perda de cabelo de padrão masculino em mulheres deve estar relacionada com excesso de androgênio, manifestando-se também por hirsutismo (excesso de pêlos) até virilização (alteração da voz, aumento clitoriano) nos casos mais graves.

Hiperprolactinemia, síndrome dos ovários policísticos, tumores adrenais, pílulas contraceptivas, esteróides anabolizantes, doença hepática e tumores produtores de androgênio ectópico (carcinóide, coriocarcinoma ou câncer pulmonar metastático) são algumas das causas de excesso de androgenia e hirsutismo.

A perda de cabelo de padrão feminino tem um mecanismo semelhante ao anterior, mas usualmente o processo é mais difuso, de localização central e áreas frontais, sem uma alopecia completa. O início precoce, na puberdade, está relacionado com uma forte história familiar, decorrente da combinação da suscetibilidade genética e sensibilidade androgênica no folículo.

A alopecia não-cicatricial está frequentemente associada a doenças sistêmicas, a alterações metabólicas ou ao uso de medicamentos. A alopecia areata é decorrente de um processo autoimune que ataca o folículo piloso, com uma perda rápida do cabelo, em área bem definida e delimitada. Presume-se que doenças autoimunes como vitiligo, tireoidite de Hashimoto e doença inflamatória do intestino estejam relacionadas com o início da alopecia areata.

Doenças da tireóide e deficiência de ferro podem deixar o cabelo difusamente mais fino. Raramente o hipopituitarismo e doença da paratireóide resultam em perda de cabelo. Alopecia pode ser a manifestação de doenças do tecido conjuntivo como lúpus eritematoso sistêmico e dermatomiosites. Existe também a tricotilomania, que é uma perda de cabelo auto-induzida, estando associada a algum distúrbio psiquiátrico. Sífilis secundária, foliculite superficial e tinea capitis também causam alopecia não-cicatricial.

Medicamentos que estão associados com perda de cabelo: betabloqueadores, antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes, retinóides sistêmicos, anticoagulantes varfarina e heparina, alopurinol, drogas antitireoidéias, verapamil, quinina, indometacina, sulfasalazina, haloperidol e vitamina A em doses excessivas.

A alopecia cicatricial pode ser decorrente de traumas físicos como radiação e tração crônica. Inicialmente o processo é reversível, mas existe a progressão da fibrose, com destruição do folículo.

O diagnóstico diferencial inicia com um exame físico cuidadoso, onde se examina o couro cabeludo e a pele em geral. Deve-se solicitar que o paciente junte os cabelos perdidos diariamente. De 50 a 200 fios de cabelos perdidos ao dia, considera-se normal. Existem alguns exames mais específicos e demorados, que podem ser realizados por dermatologistas em situações específicas.

Os exames laboratoriais a serem realizados dependerão das suspeitas e das hipóteses de diagnóstico diferencial. No entanto, exames como hemograma completo, ferro sérico, ferritina, capacidade ferropéxica, TSH, anticorpos antinucleares, hormônios androgênicos como DHEA-S e testosterona livre podem auxiliar no diagnóstico.

A biópsia do couro cabeludo pode ser útil, particularmente em casos de alopecia cicatricial com suspeita de inflamação. (Grau D)
Considerando esta gama de diagnósticos diferenciais, existem os mais variados tipos de tratamentos.

A alopecia areata pode ser autolimitada, mas também pode ser tratada com uma combinação de terapias tópicas e sistêmicas. A alopecia de padrão masculino pode ser tratada com finasterida, minoxidil, espironolactona ou dexametasona.

Bibliografia selecionada:

1- Rotunda AM. Shellow WVR. Approach to the Patient with Hair Loss. In: Goroll AH, Mulley AG. Primary Care Medicine: office evaluation and management of the adult patient. 5th ed. Lippincot Williams & Wilkins. 2006. p. 1177 - 1181.

Categoria da Evidência: Grau D de recomendação.

Profissional solicitante: Médico

Descritores: Alopecia/diagnóstico

Teleconsultor: Equipe do TSRS

11 fev 2010

Qual o tratamento da constipação intestinal em menores de um ano de idade?

A maior parte das crianças que se apresentam com constipação tem constipação funcional. Contudo, raramente a constipação tem causa orgânica (mais comum no período neonatal). Nestes casos, o tratamento deve ser direcionado para a patologia de base (1)(D).

Alguns sinais de alerta relacionados com constipação de causa orgânica são: perda de peso, distúrbio do crescimento, distensão e dor abdominal significativa, vômitos, fezes finas ou em fitas, fissuras anais persistentes ou fístulas perianais, reflexo cremastérico abolido, infecções urinárias de repetição, etc. (1)(D)

Nesta revisão, abordaremos o tratamento da constipação funcional em crianças menores de um ano.

Não existe consenso na literatura sobre a definição de constipação, mas, de uma forma abrangente, pode ser definida como “um atraso ou dificuldade na defecação, por 2 semanas ou mais, suficiente para causar desconforto ao paciente”. (2)(D)

O tratamento deve incluir quatro etapas:

1. Educação e informação dos pais sobre o problema

2. Catarse inicial (ou desempactação)

3. Implementação de um programa de reeducação do hábito intestinal

4. Prevenção da retenção de fezes, sobretudo através de uma dieta rica em fibras.

A educação dos pais e cuidadores é um componente importante do tratamento da constipação funcional . O medo de evacuações dolorosas é o fator determinante mais comum para a retenção fecal. Retardar a evacuação promove o endurecimento das fezes, que por sua vez aumenta a dor e o desconforto no momento da evacuação, o que - configurando um ciclo vicioso - retarda ainda mais a defecação pelo medo da dor e do desconforto. Eventualmente o adiamento da defecação também pode fazer parte de um comportamento opositor(1)(D).

A catarse inicial (ou desempactação) pode ser obtida através de enemas, supositórios ou medicações orais (3)(D). Não foram encontrados ensaios clínicos randomizados que comparassem os diferentes métodos. A catarse com enemas é rápida, mas também invasiva e possivelmente traumática para a criança. Na criança até 1 ano de idade, o uso do supositório de glicerina é uma boa opção, visto que é menos traumático que o enema, não apresentando efeitos colaterais significativos.(2)(D)

É importante documentar em um “diário” todas as evacuações da criança, especialmente no que diz respeito à freqüência e quantidade, para facilitar a avaliação do tratamento de manutenção e avaliar a probabilidade de impactação fecal(2)(D).

O objetivo do tratamento de manutenção é manter evacuações (2-3 vezes/dia) de fezes macias (1). Modificações dietéticas são essenciais para crianças com constipação funcional. Alguns alimentos em especial auxiliam na manutenção de um hábito intestinal regular, como por exemplo: vegetais folhosos (alface, agrião, brócolis, couve, espinafre), frutas (abacaxi, ameixa, abacate, coco, laranja, mamão, melancia, melão, uva), legumes (moranga, pepino, tomate, vagem), cereais integrais, aveia e farelo de trigo (barato, e pode ser acrescentado no caldo de feijão).

Uma revisão sistemática demonstrou que a suplementação dietética com fibras melhorou significativamente a constipação quando comparado com placebo (4)(A).

Na presente revisão, não foram encontradas revisões sistemáticas consistentes que apontem qual a opção terapêutica medicamentosa mais efetiva no tratamento de manutenção da constipação funcional em crianças menores de 1 ano. Contudo, o polietilenoglicol, a lactulose e o sorbitol (não existe preparação comercial no Brasil, sendo necessário manipular), além do supositório de glicerina, são boas opções terapêuticas (2)(D).

Caso não ocorra melhora dos sintomas da criança dentro de seis meses (considerando boa adesão ao tratamento) o encaminhamento para o especialista focal deve ser considerado(1)(D).

Bibliografia selecionada:

1- Biggs WS, Dery WH. Evaluation and treatment of constipation in infants and children. Am Fam Physician. 2006 Feb 1;73(3):469-77.

2- Baker SS, Liptak GS, Colletti RB, Croffie JM, Di Lorenzo C, Ector W, Nurko S. Constipation in infants and children: evaluation and treatment. A medical position statement of the North American Society for Pediatric Gastroenterology and Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 1999 Nov;29(5):612-26. Erratum in: J Pediatr Gastroenterol Nutr 2000 Jan;30(1):109.

3- Felt B, Brown P, Coran A, Kochhar P, Opipari-Arrigan L. Functional constipation and soiling in children [Internet]. University of Michigan Health System guidelines for clinical care 2003. [cited 2005 Feb 2]. Available from: http://cme.med.umich.edu/pdf/guideline/peds03.pdf

4- Abhyankar A, Carcani-Rathwell I, Clayden G. Constipation in children. Clinical Evidence; 2007.

Categoria da Evidência: Grau A e D de recomendação

Profissional solicitante: Médico

Descritores: Constipação Intestinal/terapia; Cuidado do Lactente

Teleconsultor: Equipe do TSRS

10 fev 2010

Gostaria de esclarecer se a rosácea pode ser tratada na UBS. Qual o tratamento mais indicado?

Os Médicos de Família e demais médicos que atuam na atenção primária à saúde devem estar capacitados a identificar e tratar efetivamente a maioria dos pacientes com rosácea. Encaminhamento para o dermatologista pode ser necessário para auxiliar no manejo da rinofima, de complicações oculares ou de doença severa (1)(D).

Até o momento, não existe tratamento curativo para rosácea, contudo, o tratamento pode efetivamente reduzir a severidade dos sinais visíveis e sintomas e pode controlar a intensidade e freqüência das crises (2).

Uma revisão sistemática da Biblioteca Cochrane demonstrou que existem evidências de que o tratamento tópico com metronidazol e o creme de ácido azelaico têm efeito terapêutico. Há também algumas evidências que de que o metronidazol e a tetraciclina orais são efetivos. Não há evidências suficientes da efetividade de outros tratamentos (3)(A).

Bibliografia selecionada:

1- Blount BW, Pelletier AL. Rosacea: a common, yet commonly overlooked, condition. Am Fam Physician. 2002 Aug 1;66(3):435-40.

2- Del Rosso JQ. Acne Vulgaris and Rosacea. In: Dale DC, Federman DD, editors. ACP Medicine: section 2. New York: WebMD; 2007. chap 12.

3- van Zuuren Esther J, Graber Mark A, Hollis Sally, Chaudhry Maria MMC, Gupta Aditya K, Gover Melissa D. Interventions for rosacea. Cochrane Database of Systematic Reviews. In: The Cochrane Library, Issue 3, Art. No. CD003262.

Categoria da Evidência: Grau A e D

Profissional solicitante: Médico

Descritores: Rosácea/quimioterapia; Atenção Primária à Saúde

Teleconsultor: Equipe do TSRS

18 dez 2009

Qual o procedimento adequado no combate a escaras em paciente com sequela de AVC?

O aspecto mais importante no manejo da úlcera de pressão (escara) é procurar prevenir seu surgimento1.

O Agente Comunitário de Saúde pode ter papel fundamental na disseminação da informação de como realizar esta prevenção, orientando tanto pacientes como cuidadores.

Abaixo, reprodução da resposta à pergunta “Como orientar os cuidadores de pacientes acamados na prevenção de úlceras de decúbito?“, retirado do site do Telesaúde RS2.

Vide: https://www.epi.ufrgs.br/sites/telessauders/teleconsultoria/Duvidas%20Frequentes/duvidas/duvida_353.html

Como orientar os cuidadores de pacientes acamados na prevenção de úlceras de decúbito?

- Estimule a pessoa cuidada a mudar de posição pelo menos a cada 2 horas. À noite, o cuidador pode mudar a pessoa de posição quando acordar a pessoa cuidada para dar medicação, ou fazer outro cuidado.

- Ao mudar a pessoa de lugar ou de posição, faça isso com muito cuidado, evitando que a pele roce no lençol ou na cadeira, pois a pele está muito fina e frágil e pode se ferir. Mantenha a roupa da cama e da pessoa bem esticada, pois as rugas e dobras da roupa podem ferir a pele.

- Se a pessoa cuidada fica a maior parte do tempo em cadeira de rodas ou poltrona, é preciso ajudá-la a aliviar o peso do corpo sobre as nádegas, da seguinte maneira: Se a pessoa tem força nos braços: oriente a pessoa cuidada a sustentar o peso do corpo ora sobre uma nádega, ora sobre a outra. Se a pessoa não consegue se apoiar nos braços: o cuidador deve ajudá-la a se movimentar.

- Alguns apoios podem ajudar a pessoa a se segurar e mudar de posição sozinha podem ser comprados ou improvisados em casa: barras de apoio para cabeceiras da cama, no teto do quarto, faixas de pano amarradas na cabeceira, nas laterais ou nos pés da cama ajudam a pessoa a levantar ou mudar de posição na cama.

- O colchão de espuma tipo “caixa de ovo” ou piramidal ajuda a prevenir as escaras, pois protege os locais do corpo onde os ossos são mais salientes e ficam em contato com o colchão ou a cadeira.

- Quando a pessoa não consegue controlar a saída de urina e/ou fezes, é necessário proteger o colchão com plástico, apenas na região das nádegas, e por cima do plástico colocar um lençol de algodão (chamado de móvel, que serve p/ proteção e para movimentação do paciente). A pele não deve ficar em contato com o plástico.

- Proteja os locais do corpo onde os ossos são mais salientes com travesseiros, almofadas, lençóis ou toalhas dobradas em forma de rolo, entre outros. Observe a Figura 01 no final da página.

- Leve a pessoa a um local onde possa tomar sol por 15 a 30 minutos, de preferência antes das 10 e depois das 16 horas, com a pele protegida por filtro solar. O sol fortalece a pele, fixa as vitaminas no corpo e ajuda na cicatrização das escaras.

- Ao colocar a comadre, peça ajuda a outra pessoa e cuide para não roçar a pele da pessoa na comadre.

- A pele da pessoa cuidada precisa ser freqüentemente avaliada e bem hidratada. Para manter a hidratação da pele é preciso: Oferecer líquidos em pequenas quantidades na forma de água, sucos e chás várias vezes ao dia, mesmo que a pessoa cuidada não demonstre sentir sede. Esse cuidado é importante, principalmente para crianças e idosos, pois esses podem rapidamente ficar desidratados. Após o banho, massagear a pele da pessoa cuidada com creme ou óleoapropriado, esse cuidado além de hidratar a pele melhora a circulação do sangue.

- Se a pessoa cuidada utilizar fraldas, é necessário trocá-las cada vez que urinar e evacuar, para evitar que a pele fique úmida.

- Procure alimentar a pessoa fora da cama para evitar que os resíduos de alimentos caídos no lençol machuquem a pele e possam provocar escaras. Caso seja necessário alimentar a pessoa na cama, é preciso catar todos os farelos e resíduos de alimentos que possam ter caído.

Fique Atento: Ao fazer a higiene corporal, evite esfregar a pele com força, pois isso pode romper a pele. Faça movimentos suaves, use pouca quantidade de sabonete e enxágüe bem, para que a pele da pessoa não fique ressecada. A pele deve ser mantida limpa e seca para prevenir a maceração porque a pele úmida quebra mais facilmente sob a pressão e forças de deslizamento.

Fique Atento: A escara surge de uma hora para outra e pode levar meses para cicatrizar.

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Figura 1

Uma vez frente a um paciente com úlcera de pressão, além das medidas utilizadas para sua prevenção, o uso de materiais especiais (ex: colchão ou almofada “especial” para aliviar pressão) ou curativos podem ser necessários2.

Não é recomendado massagem na área afetada, pois isso pode agravar a lesão2.

Na presença de infecção, a avaliação de um médico ou enfermeiro torna-se importante. O tratamento específico será orientado de acordo com o tipo e localização da úlcera de pressão2

Bibliografia selecionada:

1- Pressure ulcers [Internet]. England. NHS Clinical Knowledge Summaries. 2009 [cited 2009 Dec 15]. Available from: http://www.cks.nhs.uk/patient_information_leaflet/pressure_ulcers

2- Duvidas frequentes [Internet]. Telessaúde RS. [citado 2009 Dez 15]. Disponível em: https://www.epi.ufrgs.br/sites/telessauders/teleconsultoria/Duvidas%20Frequentes/duvidas/duvida_353.html

Categoria da Evidência: Grau D

Profissional solicitante: Agente Comunitário de Saúde

Descritores: Acidente Cerebral Vascular; Úlcera por Pressão/prevenção & controle

Teleconsultor: Diogo Luis Scalco